Um signo para chamar de meu

A astrologia mais popular, veiculada em jornais ou revistinhas, condicionou as pessoas à ideia de que todas elas tem um signo. Como um crachá de apresentação, que vai dizer muito sobre ela. Entretanto, assim que iniciamos os estudos da astrologia, mesmo quando fazemos isso pelas vias mais modernas, logo percebemos as generalizações e equívocos por trás dessa ideia.  Nesse caso em particular, é atribuída ao sol uma importância como elemento determinante da personalidade, uma condição que ele na verdade não tem. Em defesa disso, pode-se argumentar que o Sol significa centro, autoridade, liderança e as coisas mais importantes na vida de uma pessoa, e que por significar esses elementos que recebem tanta importância simbólica, naturalmente nos identificamos em nível pessoal com os seus predicados e significados essenciais.

Mas a personalidade na astrologia é um estudo mais complexo. Pode-se dizer que é impossível descrever a personalidade de uma pessoa sem levar em consideração o mapa como um todo. E pode-se também querer refutar isso dizendo que existem sim elementos que são mais importantes – que não o sol. Por exemplo, a lua e o Ascendente.

Então isso significa que podemos nos voltar para o nosso signo lunar como o nosso “verdadeiro”  signo? Não necessariamente. A lua fala de uma dimensão mais subjetiva e espontânea, mas ao mesmo tempo, de uma porção da nossa personalidade que é pouco assumida, da qual temos um baixo nível de compreensão e onde geralmente somos mais imaturos e infantilizados. Apesar de ser muito reveladora, a lua é incapaz de conferir sozinha todo esse sentido que se busca na ideia de “meu signo”.

Resta agora o ascendente, então só pode ser ele o elemento a revelar o nosso verdadeiro signo. Pra começar, o ascendente é de fato o elemento mais diferenciador do mapa astrológico. Diferente da posição do sol, da lua e dos planetas , que requerem apenas o conhecimento da data e hora de nascimento para que se encontrem seus posicionamentos precisos, o Ascendente requer ainda  o conhecimento do local onde ocorreu o nascimento, porque ele conjuga o elemento espacial no mapa , e pode variar bastante conforme a latitude e a longitude em que se nasceu. A conformação das casas astrológicas é diferente em todos os pontos do planeta para cada instante que resolvermos avaliar. Portanto temos aí um elemento que traz uma característica diferenciadora para o signo ascendente.   O ascendente tende a falar da aparência e forma física, principalmente da feição da pessoa, assim como da sua personalidade de modo geral.

Porém o ascendente é um elemento frágil: muitos dos seus significados são drasticamente alterados  por planetas que realizam aspectos com ele, por planetas em conjunção com ele e também por planetas que estão posicionados na casa 1, mesmo que distantes ou até mesmo em um signo diferente dele. Ele também é alterado pelo seu dispositor (planeta que tem domicílio ou que é o almutem do grau ascendente), que pode estar em um signo que contradiz sua natureza básica. Vemos aí a quantidade de fatores que podem alterar apenas uma parte daquilo que pode significar a personalidade de uma pessoa.

Nem o Sol, nem a lua e nem o Ascendente. E sem nenhum desses três signos podendo facilmente receber a alcunha de “O SIGNO”  de uma pessoa, como preenchemos esse vazio? Na astrologia moderna existe a brilhante ideia de se determinar o “verdadeiro signo” de uma pessoa através de uma equação que atribui pontos para cada elemento do mapa. Posicionamentos  mais importantes como Sol, lua e Ascendente recebem naturalmente uma pontuação maior, mas há quem coloque na fórmula até a lilith e os asteroides. Entretanto essa abordagem esteriliza os planetas que são na verdade os elementos fundamentais da carta astrológica. Por exemplo, uma pessoa que tem Júpiter no ascendente vai exprimir muito mais intensamente as características típicas de um ascendente em Sagitário (signo regido por Júpiter) independente do signo em que júpiter e o ascendente estejam. E aí , mesmo que a pessoa não tenha absolutamente nada em Sagitário, essa influência fundamental é excluída da análise. Mesmo uma pessoa que tenha Júpiter em trígono ou oposição ao ascendente vai exprimir mais intensamente os predicados de signos naturalmente regidos por Júpiter. Daí percebemos que este não é o caminho mais indicado.

Alguns mais versados na astrologia tradicional acreditam ter encontrado a solução para esse dilema, tão importante no existencialismo astrológico. Existe um cálculo que visa encontrar o verdadeiro planeta regente de um mapa. É um cálculo complexo, ‘misterioso’, que não está disponível facilmente para os leigos que teriam que estudar os fundamentos da astrologia pra se embrenhar nesse tema. Recebe o nome de “Almuten Figuris”, como se fosse algum feitiço do Harry Potter. Esse cálculo visa medir o nível de força que cada planeta exerce sobre os graus considerados mais importantes no mapa: O sol, a lua, o ascendente, a parte da fortuna e a sizígia pré-natal (que é o grau onde ocorreu a última lua nova ou lua cheia antes do nascimento da pessoa).  O planeta que tiver mais força após uma somatória, será declarado o “Almuten Figuris” daquele mapa. Então a solução seria adotar o signo em que se encontra esse planeta no mapa? Ou então esquecemos  do signo e adotamos somente o planeta? Ainda que o Almutem Figuris seja um elemento importante para análise, inclusive para análise da personalidade de uma pessoa, ainda assim não é ele que vai gerar essa figura que forma a individualidade de alguém.

Na verdade todos somos seres extremamente contraditórios, complexos , e ao mesmo tempo somos mais parecidos uns com os outros do que gostaríamos de assumir. Somos bem menos extraordinários e únicos do que gostamos de supor. Somos menos importantes do que nossos pais nos fizeram acreditar que somos. Na verdade somos criaturas vulgares , que existem aos bilhões neste planeta nanico. Não existe essa “essência”individual toda que tentamos desesperadamente encontrar e desenvolver. O que existe atualmente na nossa sociedade massificada é uma cultura essencialmente Narcisista e um egoísmo cego que nos leva a não enxergar o quão parecidos somos uns com os outros, e  que nos leva a nos identificarmos a nível pessoal com diversas coisas que na realidade são características humanas, presentes em maior ou menor grau em todas as pessoas. Inclusive essa linha de raciocínio que estou seguindo poderia servir facilmente para qualquer um que queira deslegitimar ‘a astrologia’, mas na verdade deslegitima apenas a astrologia personalista das revistinhas e jornais, dos signos e decalques pessoais. Porque uma análise astrológica profunda , que inclua a análise do mapa como um todo pode ajudar a pessoa a identificar de que maneira diferentes dramas coletivos são encenados em sua realidade particular e cotidiana.

Portanto, vamos refletir sobre os impulsos narcisistas   que nos levam a nos determinar de forma tão simplista e a nos apegar a ideias simples e vagas sobre quem somos. E vamos parar de tentar encontrar coisas que não existem, como a ideia de um signo (ou planeta) para chamar de seu. Somos mais complicados, mas simultaneamente mais comuns e regulares do que imaginamos.

Uma coisa que pode lhe aproximar da ideia “DO SIGNO”  é o conceito de temperamento, mas essa é uma história mais complexa. Ele traz um conceito de personalidade essencial , espontânea ou latente, que se expressa inclusive no plano físico , através da forma física da pessoa. Mas além de existirem poucos temperamentos disponíveis, dificilmente uma pessoa tem apenas um temperamento , podendo ter até 3 que se destacam mais. Ele não traz essa dimensão individualizadora que se busca, tão típica daquele conceito das revistinhas que inclusive trazem testes infalíveis pra que você saiba qual personagem de Game of  Thrones melhor reflete a sua personalidade . A recusa em lidar com a complexidade inerente cada coisa, ou mesmo a cada um de nós, é um problema generalizado não apenas entre quem gosta de astrologia, mas um sintoma da nossa sociedade. Vivemos num mundo que tenta nos simplificar e padronizar cada vez mais. Vejo essa busca por signos ou almutens pessoais , que definam, simplifiquem e resumam a pessoa, como parte desse processo que nos resume e limita cada vez mais, e que nos leva a ser cada vez menos.

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